Sempre tinha sido metódica. Aos amigos amizade, aos familiares a vida, aos colegas preocupação, ao mundo amor. Até o dia em que precisou encaixar algo nunca visto antes. Alguém que não se encaixava nos padrões mas ao mesmo tempo poderia pertencer. E deu lugar especial, tratamento especial, tudo que nunca tinha entregue à ninguém: seu coração, seu mais singelo amor. Com ele toda a verdade do mundo.
Claro que quem ama erra, e conforme passa o tempo duram os relacionamentos nos quais as pessoas são capazes de conviver com a realidade e aceitar esses erros, de maneira honesta e bonita, como o perdão deve ser. Tudo sempre ao lado da verdade, mais do que o próprio amor em si. Ela não fugia da regra, também errou um dia. Porém já não conseguia dormir, mal comia e não funcionava direito se tivesse de conviver com uma mentira. Ela que tinha sido enganada por 13 anos, sabia que mentiras são como atentados à confiança que podem acabar com todo tipo de relação entre as pessoas definitivamente.
Como eu disse, o metodismo. Esse beirava níveis profundos e estranhos até: roupas em degradê no guarda-roupas; número de telefone apenas para amigos próximos; salada antes de arroz e feijão; salgado depois da sobremesa; e cópias de todas as cartas já enviadas a outras pessoas. Porém, quando se tratava dele, não havia modus operandi. Era quando ela podia se deixar levar, e entender que a vida precisa disso também, afinal.
O problema é que as pessoas se deixam levar de um jeito estranho. Elas acham que estão sendo levadas na mesma proporção que o outro lado e que tudo está lindo assim. Quando muitas vezes não é. Elas se deixam levar acreditando que recebem do outro lado o que entregam, e só depois percebem a troca injusta e percebem os lapsos de caráter nas pessoas que se prestaram a amar com tanto afinco e dedicação. Aí a corda arrebenta do lado de quem mais se desgastou. Justamente a pessoa que mais queria que ela não arrebentasse, e que portanto é a que se machuca mais na queda. Com que então a garota se deixou levar sem nunca faltar com a verdade, e não foi bem assim que o outro lado agiu. Ela perdoou, como o amor faz, mas não esqueceu.
E o tempo passou. Problemas sempre, dificuldades muitas, mas é disso que se constroem e se compõem as pessoas, então tudo bem. De tempos em tempos a convivência conseguia fazer das pedras no caminho uma muralha cada vez mais forte para suportar o que já tinha passado de ruim. Porém a mentira apareceu de novo. E agora? Difícil para alguém perceber finalmente que pode ser enganado o resto da vida e que talvez até já tenha sido enganado outras vezes mais, apenas sem perceber. Se fechar em muros para sempre, por mentiras, por falta de sinceridade. De tal modo que um dia não pudesse mais escapar desse feitor e do labirinto que teria se formado ao redor deles para cercar a mentira de realidade e evitar a escolha certa a ser feita.
Foi quando ela precisou decidir o que fazer. Metodismo ou não. Doía demais simplesmente demolir tudo que vinha sendo construído de alguma maneira ao longo dos anos ininterruptamente, sempre exigindo mais do que a mente e o coração poderiam imaginar. Só que fazendo os cálculos, no seu metodismo racionalista, ela conseguiu entender que quanto mais tempo passasse, maiores os muros, mais errado estaria tudo que se partisse daquela fundação, e mais custaria e doeria a demolição, além da estafa de juntar forças para ver tudo (que já estava condenado) cair. A dor brusca e inevitável como uma torção de pé, um piso em falso durante uma caminhada descontraída e despreocupada.
Só que ninguém fecha os olhos ao inevitável. Você simplesmente não pode negligenciar assim. Nada. E não se pode construir coisas a partir do caos. Antes de (re)começar o que quer que seja ela precisaria destruir tudo isso que fora construído, a despeito de todo e qualquer esforço hercúleo feito até então. Como se você precisasse formatar o seu computador: ele perde um pouco do que era antes, e nunca voltará a ser como era quando estava novo, sim; e também guarda de maneira quase fora de resgate várias outras coisas para poder apagar aquilo que fez mal e que prejudicaria 'mortalmente' o sistema caso não sofresse a devida deleção. No final das contas, temos uma reinvenção de o que quer que seja para algo novo, em branco. Mas não incólume. Apenas tentando se proteger de si mesmo e evitar os piores males.
Abraçando o inevitável, ela sabia que o sofrimento viria, e promete sofrer mesmo, mas aguentar tudo com a maior habilidade possível. Sendo algo como a personagem que é o anti-herói, mas também tem seu valor. Com o metodismo de sempre, tentando realocar espaços em um coração que parecia ter ficado vazio mas que só precisaria de novas prioridades.
Abraçando o inevitável, ela sabia que o sofrimento viria, e promete sofrer mesmo, mas aguentar tudo com a maior habilidade possível. Sendo algo como a personagem que é o anti-herói, mas também tem seu valor. Com o metodismo de sempre, tentando realocar espaços em um coração que parecia ter ficado vazio mas que só precisaria de novas prioridades.
(Evelise Kowalczyk dos Santos)
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